Ambientes
de aprendizagem: fórum de discussão e YouTube
Eliane Lopes Werneck
de Andrade
No Brasil, desde o final do
século XX diversos estudos na área da pesquisa em Educação, por exemplo,
abordam considerações sobre a importância das inovações e transformações
impostas às sociedades atuais em consequência do acentuado incremento da
globalização. Este processo mundial econômico e social é marcado pelos avanços
tecnológicos nos setores de comunicações (Internet etc.), de
telecomunicações, de transportes e outros, que contribui para a veloz expansão
do capitalismo financeiro.
Em fase anterior, com o
advento do capitalismo tardio no Brasil, iniciaram-se discussões de como
melhorar as relações entre professores, alunos e conhecimento, sob a influência
de movimentos educacionais internacionais pós-segunda guerra mundial. Assim,
muito se tem discutido e estudado para que hoje tenhamos um arcabouço teórico
que nos possibilite pensar como fazer um trabalho mais humanizado e dialógico
em busca de outras formas de fazer educação, diferentes daquelas que
privilegiam exclusivamente a repetição e a memorização de conteúdos, além da
rígida hierarquia entre os sujeitos dos processos de ensino e de aprendizagem - a prática bancária, cunhada por Paulo Freire.
Reflita
sobre a vida e obra de Paulo Freire visitando o blog Grupo UFMG/7º período em "http://paulofreireufmg.blogspot.com/2010/06/paulo-freire-um-icone_24.html".
Refletindo
sobre o passado, para aprender a reconstruir práticas no presente, escolhi o
fórum de discussão e o YouTube como espaços virtuais onde há possibilidade de
trocas de experiências, de aprendizagens diversas e diferenciadas com o
objetivo de construir conhecimento sobre quaisquer temas de interesse.
Os fóruns de discussão são
espaços em que são promovidas atividades entre usuários. Apesar da comunicação
assíncrona, os fóruns são importantes porque neles a interação é dada na
linguagem escrita e, dentre outros aspectos, isto pode ser considerado como
fator importante para a ampliação da alfabetização dos usuários, visto que
nestes espaços há comunicação entre pessoas de vários níveis diferentes de
alfabetização, mesmo que sejam geralmente aproximados.
Além dos usuários, nos
fóruns há participação de outros atores, os moderadores e os administradores.
Diferentemente dos
usuários, os moderadores possuem diversas funções: editar, mover, apagar,
adequar o que for necessário na sala de discussão, etc. Já o administrador é
responsável pela administração e configuração do fórum, podendo, por exemplo,
criar novas salas, bem como, se necessário, bloquear ou expulsar membros que
não respeitem as regras, etc (GABRIELLI, 2009, p. 211).
Nos cursos semipresenciais e
em educação à distância (EAD) é recorrente o uso dos fóruns de discussão,
possibilitando a comunicação de alunos, professores tutores à distância,
coordenadores das disciplinas e professores tutores presenciais, inclusive.
O ideal é que nesse tipo de
espaço a troca de mensagens seja rápida, por isso a equipe de professores de
cada disciplina deve ser formada com quantitativo suficiente para que se
efetive um cronograma bem organizado de horários, que cubra o maior tempo
possível de atendimento aos alunos, tanto em relação a perguntas sobre quaisquer
tipos de questões, quanto em relação a discussões travadas entre os alunos
sobre determinado tema. Tal procedimento, realizado de forma adequada, pode minimizar
o silêncio virtual e construir uma mediação efetiva da parte dos professores
tutores.
Fóruns de discussão entre
polos diferentes são ótimos para fomentar a interação e a colaboração entre
maior quantitativo de pessoas, cujos interesses são simultaneamente globais e
locais, dependendo da situação e contexto. Os coordenadores das disciplinas e
os professores tutores ao estimularem diálogos entre alunos de polos
diferentes, inclusive, podem provocar mudanças na forma de se pensar os
conteúdos visto que vivências e formas de pensar diferenciadas podem resultar
em relações mais complexas para que ocorra o aprendizado efetivo de todos.
Construir o novo não é repetir indefinidamente, sem reflexão, o que já é
conhecido, é repensar conceitos a partir de óticas diferentes, e tudo isso
exige dedicação, trabalho e pesquisa da parte de todos os envolvidos. Não há
construção de conhecimento sem isso.
Outra forma de trabalho com
os fóruns, que considero uma forma de mediação efetiva, dialógica e reflexiva,
é solicitar às turmas que criem e conduzam seus próprios espaços coletivos de
discussão para tratar de conteúdos complementares, e relacionados a temas
abordados em pelo menos duas disciplinas concomitantemente.
Creio que um estímulo, para a
construção comprometida de fóruns desta natureza, é pensar neles como um
substituto, por exemplo, de uma das avaliações presenciais das disciplinas
contextualizadoras em cada semestre, tendo a participação das equipes de
profissionais de tais disciplinas como orientadores e coparticipantes das ações
empreendidas pelas turmas, estimulando a avaliação coletiva do trabalho de
todos os participantes. Uma
produção desta natureza pode contextualizar outra produção coletiva, um vídeo a
ser disponibilizado na Internet, por exemplo, para isso pode-se estimular o
trabalho com o YouTube.
A plataforma YouTube, é uma
ferramenta virtual que possibilita compartilhamento de vídeos. Sua principal
função é “permitir que os usuários carreguem, assistam e compartilhem vídeos em
formato digital” (DANTAS, 2018).
Como
recurso pedagógico e propiciador de interações colaborativas em EAD, o YouTube
pode ser usado de diferentes formas na educação “[...] a variedade de
atividades que estes websites são capazes de produzir é enorme, vão desde
compartilhamento de informações, textos e vídeos, até a criação de jogos,
questionários, pesquisas e avaliações” (QUINTANILHA, 2018, p. 253).
Além
do exposto, o “site permite que os usuários coloquem seus próprios vídeos na
rede, sendo visualizados por qualquer pessoa no mundo inteiro” (DANTAS, 2018).
O
YouTube é uma das plataformas mais acessadas na Internet. Sua relevância pode
ser constatada em consequência da criação YouTube Space.
O YouTube Space une
as pessoas mais criativas do YouTube para que elas aprendam, se conectem e
criem conteúdo juntas. Os Spaces estão no mundo inteiro e oferecem eventos e
workshops, além dos recursos de produção mais recentes. Tudo está ali para dar
vida às suas ideias mais brilhantes. Selecione um dos locais abaixo para saber
mais (YOUTUBE CREATORS).
Orientar
atividades com vídeos produzidos pelas próprias turmas no YouTube é uma forma
de valorizar, caso existam, a contribuição de alunos que tenham algum tipo de
conhecimento sobre a construção de tais objetos nesta plataforma, e o empenho
deles em compartilhar saberes com o restante do grupo. Caso a hipotética
situação não ocorra, o estímulo à busca pelo aprendizado coletivo da produção
em destaque, mostra a todos que as capacidades e habilidades de cada aluno
podem ser usadas em prol da ampliação dos conhecimentos do grupo, possivelmente
elevando a autoestima e o interesse pelo aprendizado, visto que, todos os
envolvidos, ao precisarem discutir e buscar que caminhos seguir, podem
sentir-se como elo importante na construção do objeto final.
Vejamos
fragmentos extraídos de Quintanilha (2017), neles observam-se consequências
relevantes a partir da proposta de trabalho com o YouTube, realizada pelo
pesquisador:
[...] P - Sobre a elaboração de um vídeo para o Youtube, foi a primeira vez
que você elaborou um vídeo para esse propósito? Você acha que isto foi
significativo para o seu aprendizado? Por quê?
E5 - Já realizei vídeos de trabalhos escolares e de faculdade, contudo para
o youtube foi a primeira vez e acho válido para um número maior de pessoas terem acesso a informação e não
ficar restrita apenas ao ambiente e pessoas da sala de aula. Para elaboração de
um vídeo, é preciso dedicar um tempo para discutir o assunto, buscar
informações que possam ser criativas e importantes de serem passadas,
implicando em um domínio do conteúdo. Foi uma experiência significativa sim e o
conhecimento adquirido ajudou muito em disciplinas posteriores.
E6 - Foi a primeira que vez que elaborei um trabalho escolar para o youtube.
[...] por causa desse vídeo tive que buscar várias informações em outros livros
de diversas disciplinas, referência em artigos internacionais e essa busca pelo
conhecimento para trazer um vídeo de qualidade foi uma experiência única para
mim e para meus companheiros de equipe (QUINTANILHA, 2017, p. 256-257).
A partir das considerações obtidas pela pesquisa destacada,
conclui-se que uma proposta assim realizada aproximaria todos os atores virtuais
envolvidos na busca pelo conhecimento global de forma dialógica e reflexiva,
pois sem trabalho persistente e efetivo de todos não há inovação.
As atividades propostas para a
educação a distância, portanto, devem considerar a questão da capacidade
individual do aluno e por isso, oferecer atividades que venham a contribuir com
o seu avanço intelectual.
Para
tanto, deve-se propor atividades que permitam o feedback, a devolutiva com as
orientações necessárias, de forma que o aluno seja obrigado e motivado a
repensar o conhecimento existente [...] (SOUZA, MIOTA e CARVALHO, 2011, p. 224).
Entendo
que as atividades aqui propostas serão mais desafiadoras se realizadas com
conteúdos de diferentes disciplinas em torno de um tema gerador. Ao mostrar
que, de fato, pode haver interação entre equipes diversas em prol da
construção de conhecimento dos alunos, sem o formato da educação bancária, e que a
interdisciplinaridade é possível, a atividade também será problematizadora e poderá resultar na quebra de fronteiras e de paradigmas que engessam o conhecimento,
provocando, ainda, possivelmente, maior interesse e empenho da parte de todos
os participantes envolvidos em tais práticas virtuais, sejam estes as equipes e
os alunos.
Referências:
Gabrielli, K. S.. O papel da mediação pedagógica em fóruns educacionais de cursos on‑line de língua estrangeira. SOTO, U., MAYRINK, MF., e GREGOLIN, IV., orgs. Linguagem, educação e virtualidade [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 249 p. SciELO Books . Disponível em: <http://books.scielo.org/id/px29p/pdf/soto-9788579830174-12.pdf>. Acesso em: 08 jun. 2018.
QUINTANILHA, L. F. Inovação
pedagógica universitária mediada pelo Facebook e YouTube: uma experiência de
ensino-aprendizagem direcionado à geração-Z. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 65, p. 249-263, jul./set.
2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/er/n65/0104-4060-er-65-00249.pdf>.
Acesso em: 08 jun. 2018.
SOUSA, RP., MIOTA, FMCSC., e
CARVALHO, ABG., orgs. Tecnologias digitais na educação [online]. Campina Grande:
EDUEPB, 2011. 276 p. SciELO Books. Disponível
em: <http://books.scielo.org/id/6pdyn/pdf/sousa-9788578791247-09.pdf>.
Acesso em: 13 jun. 2018.
YOUTUBE CREATORS. YouTube Space. Disponível em: <https://www.youtube.com/intl/pt-BR/yt/space/>.
Acesso em: 08 jun. 2018.
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